Em 1688, um médico suíço chamado Johannes Hofer decidiu dar nome a algo que, até então, só era sentido. ¨¨¨¨

 

A gente costuma pensar na nostalgia como uma saudade meio teimosa que não vai ser satisfeitas, mas mesmo assim insiste em existir por mais racional que você seja.

É por isso que eu continuo jogando os mesmos jogos de 2001. É uma saudade de algo que ficou pra trás, de um tempo que não existe mais ou, pior ainda, de um tempo que até existe… mas nunca mais vai ser vivido do mesmo jeito e com a mesma intensidade.

Só que a parte curiosa é que essa palavra nem sempre existiu.

Em 1688, um médico suíço chamado Johannes Hofer decidiu dar nome a algo que, até então, só era sentido. E para ele, isso não tinha nada de poético. E ra uma doença.

O termo vem do grego, mas não evoluiu naturalmente ao longo do tempo porque foi uma construção.

“nostos” significava o retorno para casa e “algos”, dor. Logo, nostalgia era, literalmente, a dor de querer voltar.

Hofer observava mercenários suíços lutando longe da própria terra e eles apresentavam sintomas físicos reais: fadiga, insônia, febre, batimentos irregulares. Mas havia algo em comum entre todos eles: Pensavam o tempo inteiro em casa.

Para Hofer, aquilo era uma doença causada pela distância. Uma espécie de colapso do corpo provocado pela ausência do lugar ao qual se pertence. Só que Hofer não descobriu esse sentimento. Ele só fez o que a gente faz quando não entende alguma coisa: deu um nome.

Séculos antes, na Odisseia, atribuída a Homero, o herói Odisseu passa anos tentando voltar para casa depois da guerra de Troia. O caminho de volta não é direto. Ele enfrenta tempestades, monstros, deuses contrariados… e uma sequência de atrasos que transforma uma volta em uma espera interminável. 10 anos e nada de casa. Ítaca continua existindo. Mas a vida que ele deixou lá já não é mais a mesma.

Em um momento específico, já longe de batalhas e ainda mais longe de casa, ele escuta alguém cantar sobre a guerra de Troia… sobre os heróis, sobre o cavalo, sobre tudo o que aconteceu. Sobre ele. E ali, sem aviso, ele desaba.

Chora em silêncio, tentando esconder o rosto, esmagado pela distância não só do lugar, mas do tempo que ficou preso lá atrás, junto com tudo o que ele perdeu.

Hofer achou que estava descrevendo uma doença nova. Mas, no fundo, ele só colocou nome em uma das dores mais antigas que existem. É por isso que a gente continua tentando voltar… mesmo sabendo que não existe mais pra onde. Nem que seja… abrindo um jogo antigo e tentando se reconectar com um tempo que não existe mais.



Post de Fagner Oliveira

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