Nem todo desajuste nasce de influência escura.
Às vezes, nasce de hábito.
De vaidade.
De orgulho sem freio.
De mentira repetida até virar costume.
De um temperamento que nunca aceitou correção, porque sempre achou mais fácil culpar forças invisíveis do que encarar a própria sombra.
Existe um alívio perigoso em chamar de ataque aquilo que, no fundo, é desordem moral.
Porque o demônio expulso devolve à pessoa a sensação de limpeza imediata.
O caráter, não.
O caráter pede trabalho.
Pede vigilância.
Pede renúncia.
Pede humildade para admitir que muita perturbação não veio de fora: foi cultivada dentro.
Muita gente quer libertação sem reforma.
Quer paz sem disciplina.
Quer mudança sem exame de consciência.
Quer milagre onde faltou honestidade.
Quer unção onde faltou domínio de si.
Quer culpar o inferno por feridas abertas pela própria linguagem, pela própria dureza, pela própria irresponsabilidade afetiva.
Só que a vida espiritual séria nunca caminhou separada da verdade interior.
Não adianta expulsar trevas da casa e continuar alimentando trevas no trato.
Não adianta buscar oração forte e permanecer cruel.
Não adianta jejuar, vigiar, clamar, e continuar sem cuidar da língua, do ego, da inveja, da falsidade e do gosto de ferir.
O mal que vem de fora assusta.
O mal que se instala no caráter destrói em silêncio.
Por isso, certas libertações não começam no altar.
Começam no arrependimento.
Na coragem de rever atitudes.
Na decisão de não repetir o erro que sempre encontrou desculpa religiosa para continuar vivo.
Fé sem correção moral vira encenação.
Espiritualidade sem mudança de caráter vira verniz.
E talvez uma das verdades mais duras seja esta: nem toda opressão é demoníaca. Muita coisa que pesa na vida de alguém é fruto de uma alma que ainda não quis se tratar com sinceridade.
Expulsar o que oprime é bênção.
Corrigir o que corrompe é dever.
E só quando essas duas coisas se encontram a pessoa deixa de buscar apenas alívio e começa, de fato, a se transformar.
Post de Diário Espírita

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