Para entender o fenômeno da levitação na vida de Teresa d'Ávila ¨¨

 

Para entender o fenômeno da levitação na vida de Teresa d'Ávila, é preciso começar por uma distinção que ela mesma faz em sua autobiografia com uma clareza perturbadora: a levitação não era algo que ela desejava. Não era uma conquista espiritual que ela buscava, um sinal de santidade que ela cultivava, uma experiência que ela aguardava com ansiedade. 

Era, ao contrário, algo que acontecia a ela — contra sua vontade, na maioria das vezes nos momentos mais inconvenientes — e que a envergonhava profundamente.

Ela flutuava. O corpo se elevava acima do solo até cerca de trinta centímetros — às vezes mais — e permanecia suspenso no ar sem nenhum suporte físico, desafiando de forma visível e impossível de ignorar tudo o que a física do século XVI sabia sobre como os corpos se comportam no espaço. O fenômeno aconteceu dezenas de vezes ao longo de sua vida, com frequência durante estados de êxtase profundo na oração — e nem sempre em privado.

E aí estava o problema que atormentava Teresa com muito mais intensidade do que qualquer teólogo imagina ao ler seus escritos: ela levitava na frente das outras freiras. Na frente das noviças. Durante as missas. Em momentos litúrgicos coletivos onde qualquer manifestação extraordinária era imediatamente observada, comentada, interpretada, e — o que Teresa mais temia — admirada. 

Porque a admiração era exatamente o oposto do que ela queria. Teresa, que passou décadas batalhando contra o que chamava de vaidade, contra o prazer de agradar e ser vista, contra tudo que desviasse a atenção de si mesma para Deus, via na levitação pública uma fonte permanente de humilhação espiritual — não porque o fenômeno fosse vergonhoso em si, mas porque ele a tornava o centro das atenções num contexto em que ela queria ser invisível.

A resposta que ela encontrou foi simples e absolutamente humana: pediu às irmãs que a segurassem. Quando sentia a oração aprofundar-se além do ponto em que conseguia controlar o que acontecia com seu corpo, ela avisava as freiras mais próximas, que a seguravam pelos braços, pelos ombros, pelo que conseguissem alcançar. E as irmãs seguravam. 

As testemunhas que confirmaram o fenômeno no processo de canonização descreveram essa cena repetida ao longo de anos — uma mulher em êxtase sendo literalmente ancorada ao chão por outras mãos que tentavam manter o corpo onde a gravidade insistia que ele deveria estar.

Em suas próprias palavras, escritas com aquela mistura de humildade genuína e precisão psicológica que torna sua autobiografia única na literatura espiritual mundial, Teresa descreve o que sentia quando o fenômeno se aproximava: uma força interior que subia e que ela não conseguia resistir, uma espécie de arrebatamento que tomava o corpo antes que a vontade pudesse interpor qualquer barreira. 

Ela compara a experiência à sensação de ser levantada por nuvens ou por uma águia poderosa — imagens que revelam não apenas a intensidade do que sentia, mas também sua tentativa honesta de encontrar linguagem para o que não tinha linguagem disponível no século XVI.

O que tornava o episódio ainda mais desconcertante era a combinação entre o arrebatamento interior e a consciência exterior que Teresa mantinha durante as levitações. Ela não estava inconsciente. Não estava num estado de ausência total da mente. Estava, de alguma forma, simultaneamente mergulhada numa experiência interior de intensidade extraordinária e ciente do que acontecia com seu corpo, ciente das freiras ao redor, ciente da inadequação social do momento. Essa dualidade — o êxtase coexistindo com a percepção ordinária — é uma das características mais difíceis de descrever dos estados místicos avançados, e Teresa a descreve com uma lucidez que continua desconcertando pesquisadores, teólogos e estudiosos do misticismo comparado até hoje.

A Igreja Católica registrou e reconheceu formalmente o fenômeno no processo de canonização de Teresa, e a levitação figura entre os fenômenos místicos documentados e aceitos como parte de sua experiência espiritual verificada. A representação mais famosa dessa dimensão de sua vida é a escultura de Gian Lorenzo Bernini, esculpida por volta de 1650 na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma — A Êxtase de Santa Teresa — que captura exatamente esse estado: o corpo suspenso, os braços sem tensão, o rosto com uma expressão que não é de dor nem de prazer ordinário, mas de algo para o qual a linguagem ainda não encontrou um nome completamente adequado.

O que torna a levitação de Teresa especialmente significativa dentro do Espiritismo é a observação de Allan Kardec sobre os fenômenos extraordinários da vida dos santos, incluindo os de Teresa: a ciência espiritual os compreende não como privilégios concedidos a poucos eleitos, mas como manifestações das leis que governam a relação entre o Espírito e o corpo, quando o Espírito atinge determinado grau de desenvolvimento e de sensibilização que lhe permite, em estados de intensa vibração, momentaneamente reduzir a dependência do corpo às forças físicas que normalmente o mantêm preso à matéria. 

O fenômeno não estava fora da lei. Estava numa dimensão da lei que o século XVI ainda não tinha instrumentos para conhecer — e que Teresa viveu, relatou com honestidade, e deixou registrado para que, algum dia, alguém tivesse as palavras certas para explicar.

Esse dia chegou. E as palavras chegaram com o Espiritismo Cristão — trezentos anos depois de uma mulher que flutuava contra a própria vontade e pedia às freiras que a segurassem para não assustar ninguém.


Chico - Cartas de Paz e Consolação

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