PRECE DE MARIA DOLORES ***

 Senhor!

Quando me deres

O privilégio do renascimento

No berçário do mundo, ante as necessidades que apresento

E aquelas que não vejo,

Eis, Senhor, o desejo

Em que dia por dia me aprofundo:

Deixa-me renascer em qualquer parte,

Entretanto, que eu possa acompanhar-te

Onde constantemente continuas

Trabalhando e servindo em todas as estradas

Para que eu também tenha as mãos marcadas

Como trazes as tuas...

 ***

Quanta ilusão quando me debatia

Crendo que o desespero fosse prece,

A rogar-te alegria e esperança

Sem que nada fizesse!

Imitava na Terra o lavrador

A temer a pedra e lama, vento e bruma,

Aguardando milagres de colheita

Sem plantar coisa alguma.

 ***

Entretanto, Senhor, agora sei

Que o trabalho é divino compromisso,

Estímulo do Céu guiando-nos os passos

E que, atendendo à semelhante lei

Puseste ambas as mãos em nossos braços

Por estrelas de amor e de serviço.

Assim, quando efetues

As esperanças em que me agasalho

E estiver entre os homens, meus irmãos,

Que eu me esqueça em trabalho

E me lembre das mãos...

Não me dês tempo para lastimar-me,

Que eu busque tão-somente a luz que me acenas...

No anseio de seguir-te

Quero o trabalho apenas. 


Dá que eu seja contigo, onde estiveres,

Uma rósea de paz... Que eu seja alguém

Sem destaque e sem nome

Que se olvide no bem.

E se um dia uma cruz de provas e de agravos

Reclamar-me a tarefa e o coração,

Não me largues ao susto a que me enleie,

Ajuda-me a entregar as próprias mãos aos cravos

Da incompreensão que me rodeie,

Entre bênçãos e fé e preces de perdão!

Não consintas que eu volte ao tempo morto

Da ilusão convertida em desconforto,

Dá-me os calos da paz nas tarefas do bem,

A servir sem perguntar a quem...

Ouve, celeste amigo,

Aspiro a estar contigo,

Longe de minhas horas desregradas,

 Onde sempre estiveste e sempre continuas

Plantando o amor em todas as estradas,

Para que eu também tenha as mãos marcadas

Como trazes as tuas...

MARIA DOLORES

Uberaba, 03 de Junho de 1972 

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