sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

“Estreita é a Porta e Apertado o Caminho que Conduzem à Vida Eterna”

Palavras equivalentes a estas aparecem inúmeras vezes, e com grande
insistência na doutrina de Jesus, como aliás de todos os grandes mestres
espirituais da humanidade. Estreita é a porta e apertado o caminho que
conduzem à vida eterna — ao passo que larga é a porta e espaçoso o caminho
que levam à morte eterna. Difícil é a salvação — fácil a perdição do homem.
A vida eterna, isto é, a imortalidade do nosso Eu, é o que há de mais
largo e espaçoso em si mesmo porque é o próprio Infinito e Eterno — mas o
processo de realizarmos em nós, individualmente, esse estado é tão árduo que
poucos o conseguem, pelo menos na existência terrestre.
De infinita alegria e felicidade é a meta — de grandes lutas e sofrimentos
é o método.
Donde vem essa dificuldade?
É porque se trata da transição de um estado da nossa vida já antigo,
conhecido e fácil, que é a experiência do nosso ego fisico-mental — para outro
estado, novo, quase totalmente desconhecido, e por isso difícil, ao menos no
seu inicio. Pode a continuação ser fácil, mas toda a iniciação é difícil. Um
violinista virtuose, um “iniciado” nessa arte, não encontra dificuldades em tocar
com perfeição a mais difícil das músicas — mas um violinista principiante, um
“iniciando”, tem de concentrar o máximo da sua atenção e do seu esforço
mental para acertar as notas. O que para aquele é gozoso, para este é ainda
doloroso. Amar os inimigos é fácil para o Cristo, porém, dificílimo para qualquer
discípulo do Cristo não cristificado.
“Discípulo” e “disciplina” vêm da palavra latina discere, que quer dizer
“aprender”. O que é fácil e gozoso para o Mestre é difícil e doloroso para o
aprendiz.
Tudo que se refere às atividades do nosso ego personal — no mundo
dos sentidos, da mente e das emoções — é fácil para nós, porque é rotina de
longa data, que corre sobre trilhos previamente alinhados, foi praticado durante
anos e decênios por nós, individualmente, e por muitos milênios pela
humanidade considerada como espécie coletiva. Todo homem normal acha
fácil e gozoso comer, beber, dormir, fruir prazeres sexuais; é fácil e deleitável
adquirir e possuir bens materiais, conservá-los e aumentá-los cada vez mais
essa incessante caça àmatéria morta ou à carne viva é o alfa e ômega da
imensa maioria dos homens que conhecemos. É fácil e fascinante ouvir
elogios, ser estimado, amado, aplaudido como um super-homem, talento ou
gênio, porque tudo isso acaricia nosso velho ego físico, mental e emocional.
Nesta zona não se requer “disciplina”, isto é, arte de discere, de aprender,
porque todas estas coisas se desenrolam em nós com automática facilidade.
Entretanto, é difícil e doloroso abrir mão das nossas posses materiais,
dos nossos prazeres sensuais, dos elogios e da estima de nossos
semelhantes, porque estas coisas se referem, não ao nosso Eu espiritual —
que é, para a maior parte dos homens, uma grande incógnita, talvez um objeto
de crença, mas, para pouquíssimos experiência própria — mas ao pequeno
ego. Aqui se requer “disciplina”, a arte de aprender, de ser aprendiz ou
discípulo. E psicologicamente claro que o homem não pode gostar de algo que
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ignora e que não pode ter facilidade de algo que não praticou; faltam os trilhos
alinhados e falta, também, o volante da máquina que suavize os movimentos. E
“porta estreita e caminho apertado”.
Os grandes mestres espirituais conheciam de experiência própria, de
prática diuturna, essa zona maravilhosa, e, em face da sua fascinante
grandeza e beleza, perdiam o interesse pelas coisas primitivas do mundo
externo, que, para os ignorantes e inexperientes, forma o cobiçado alvo da lufalufa
cotidiana. Eles são os sapientes e universitários do espírito —nós, os
insipientes e analfabetos da grande realidade. Os verdadeiros “realistas” são
esses grandes iniciados no mundo da suprema e única Realidade — nós os
“irrealistas” ou “pseudo-realistas”. Todo homem fascinado pelo mundo objetivo
é irrealista, embora, lá na sua profunda ignorância, ele se tenha em conta de
realista e considere o homem espiritual como irrealista e sonhador de miragem.
Um homem boçal, habituado a se divertir em tavernas infectas e clubes
de ínfima categoria, não compreenderia o “mau gosto” dos que se deliciassem
em uma sociedade de artistas ou filósofos; não possui antena receptiva para
tão altas vibrações.
*
Entre a experiência do nosso velho ego e a experiência do nosso novo
Eu (embora antiqüíssimo em si) pode o homem assumir uma de duas atitudes,
diametralmente opostas uma à outra: pode assumir a atitude de crer ou a
atitude de não crer naquilo que ainda ignora e desconhece.
A atitude de crer é algo intermediário entre a simples experiência físicomental
do velho ego e a experiência espiritual do novo Eu; é algo eqüidistante
desta e daquele pólo extremo. A experiência do ego baseia-se nos sentidos e
no intelecto (tanto mental como volitivo) — ao passo que a experiência do Eu
nasce da razão espiritual, a alma, o espírito de Deus no homem. A inteligência
tem a tendência irresistível de investigar o mundo externo dos objetos,
podendo até invadir as zonas extratelúricas, lançando satélites e planetas para
os espaços siderais , ou devassar fisicamente esses espaços. A razão
espiritual não está interessada nessa investigação do mundo externo das
quantidades, mas vai em demanda do mundo interno da qualidade, porque, na
sua profunda sabedoria, ela sabe que as quantidades são derivadas e ilusórias,
ao passo que a qualidade é original e verdadeira.
Ora, entre esta sabedoria e aquela ignorância, entre o não saber e o
saber, está o crer, o misterioso mundo da fé, no sentido teológico, que consiste
num ato de boa vontade, da aceitação de algo de cuja realidade não se tem
ainda experiência direta. Fé, na linguagem de Jesus, é idêntica a experiência,
isto é, um contato direto com a Realidade, mediante a intuição da razão
espiritual, ou revelação divina.
O nosso crer, a fé teológica, é, sobretudo, um ato volitivo, uma atitude da
nossa vontade. Crer équerer. O crer ultrapassou o inteligir mental, mas ainda
não atingiu o compreender racional, que éo saber (ou saborear) espiritual.
Quando o homem compreende racionalmente, sabe ele como o mundo sabe,
porque lhe tomou o sabor pela experiência imediata. O verdadeiro sapiente ou
santo é aquele que saboreia o mundo espiritual, e por isso é o único que
realmente sabe do sabor do mundo de Deus.
Mas essa transição do crer volitivo para o saber espiritual exige uma
disciplina intensa e diuturna, porque há entre o crer e o saber um abismo
imenso ou uma montanha altíssima a superar. É propriamente aqui a “porta
estreita” e o “caminho apertado”. A transição do não crer para o crer é fácil
quando comparada com a transição do crer para o saber. Pode o homem
profano, o descrente, passar a ser um crente, mas apesar disto continuar a ser
um profano. O descrente é um profano de má vontade, o crente é um profano
de boa vontade — mas ambos são profanos, porque nenhum deles sabe
experiencialmente o que é aquilo em que ele crê ou de que descrê. A
profanidade desponta para além de todas as trevas das descrenças e de todas
as penumbras das crenças, porque ela éo dia radioso do saber integral, direto,
imediato, da própria Realidade, que é o Deus eterno e infinito.
Crer é algo penúltimo — saber é último.
É necessário crer — mas é insuficiente crer.
Ninguém pode saber sem que primeiro creia. Ninguém pode dar o último
passo sem passar pelo penúltimo.
Se é difícil para o homem inteligente crer —dificílimo é para o homem
crente saber.
O simples entender ou inteligir mental é a vida
ideal do ego; é nessa zona da ciência intelectual que o homem profano vive e
se diverte habitualmente, e nessa zona pode a personalidade luciférica celebrar
os seus maiores triunfos, pode chegar mesmo ao mais intenso satanismo antiespiritual,
se quiser.
Esse simples inteligir mental é perfeitamente compatível com o não crer,
e, quando unilateral, leva mesmo à descrença total.
Com o despontar da crença, do crer volitivo, começa uma espécie de
agonia para o orgulhoso inteligir mental, porque este se vê obrigado a aceitar
algo que ele não pode analisar cientificamente, o que é humilhante para o
intelecto.
Mas essa agonia não termina em morte total do ego.
Essa morte total só se dá com a transição do crer para o saber.
O sapiente morreu tanto para a inteligência como para a crença. Deixou
de ser um inteligente e deixou de ser um crente. A sua sapiência
experiencial da suprema Realidade devorou todas as irrealidades e
semi-realidades inferiores, do plano de inteligir e
do crer.
Esse homem é um grande liberto, um verdadeiro redento um liberto,
redimido da velha escravidão do mundo dos objetos em que se movem os
inteligentes e os crentes. Esse homem deixou de ser profano, e se tornou
iniciado, o que não quer dizer que seja um homem plenamente realizado.
Iniciado é aquele que fez um início, isto é, que abandonou os seus
ziguezagues oscilantes e incertos e pôs o pé no princípio de uma linha reta que
o levará rumo ao seu destino final.
Muitos são os profanos.
Poucos os iniciados.
Pouquíssimos os realizados.
Aqui no planeta Terra temos notícia de um único homem plenamente,
realizado, liberto e redento da ilusão dos objetos, e por isto mesmo Redentor,
Filho de Deus e Filho do Homem.
*
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Por que é tão difícil passar do inteligir para o crer e do crer para o saber?
Porque o inteligir ou entender mental é terreno batido, conhecido e firme
— ao passo que o crer é terreno misterioso, incerto — e saber é um mundo
totalmente ignoto para a maior parte dos homens, mesmo os crentes. Ora, a lei
da conservação exige que pisemos terreno conhecido e garantido; do contrário,
correm os perigo de deixarmos de existir. Não sacrificar o certo pelo incerto —
é imperativo categórico da biologia em todos os setores da vida.
Se não houvesse, nas profundezas da natureza humana, algo que nos
garantisse a existência para além das fronteiras do inteligir, não deveria o
homem cruzar essa perigosa fronteira mental.
Para o animal, até o inteligir, se dele fosse capaz, representaria um
perigo, porque a ele só o sentir é que lhe dá segurança vital de existência. O
inteligir seria, para o animal, uma espécie de suicídio — assim como o crer é
um suicídio para o homem simplesmente inteligente — e o mais completo
suicídio, ou egocídio, é a transição do crer para o saber. Quem quiser, a todo o
transe, conservar essa sua vida de crente não pode entrar na vida do sapiente
— assim como um feto humano que se recusasse a ‘‘morrer” para a vida intrauterina
não poderia viver a sua vida própria fora das entranhas maternas.
O profano não é ainda concebido.
O crente é concebido, porém não nascido; apenas nascituro.
O sapiente é um nascido, um pleninato.
A fé, o crer, é uma ponte misteriosa entre um mundo conhecido e um
mundo desconhecido; é uma visão longínqua da suprema e única Realidade; é
a voz da nossa origem, o eco do Infinito dentro do nosso finito.
O heliotropismo da planta, que a leva a voltar-se sempre ao sol, mesmo
quando este se acha oculto por detrás das nuvens, ou não emergiu ainda do
horizonte, esse heliotropismo (como a própria palavra indica) é a voz do sol
dentro da planta; pois a planta é filha do sol; ela é luz solar em estado
potencial. O heliotropismo é o eco solar dentro da vida da planta, que anseia
pelo sol porque veio do sol e vive do sol. Para a planta heliotrópica, o sol é, ao
mesmo tempo, transcendente (atual) e imanente (potencial). A planta, por
assim dizer, crê no Sol, e por isto pode crescer, porque o seu crescimento é
uma progressiva lucificação, um processo solar dentro da filha do sol.
Ora, sendo o homem essencialmente divino —embora a consciência da
sua divindade se ache, por ora, em estado potencial de latência — pode a voz
de Deus acordar nele o eco ou a reminiscência da sua origem divina. Quando o
homem escuta em si essa voz de Deus, que é a voz do seu verdadeiro Eu,
então ele crê, tem fé. E esse crer é o primeiro passo para o saber.
*
Que falta ao crer para culminar em saber?
Falta o mais apertado de todos os caminhos, falta a mais estreita de
todas as portas — falta que o homem passe pelo “fundo da agulha”,
despojando-se de tudo que ele tem e ficando só com aquilo que ele é. “Quem
quiser ser meu discípulo renuncie a tudo que tem.”
Esse desnudo SER, livre de todas as impurezas do TER, é que é o passo
mortífero que leva à vida eterna.
Todo homem que passa por essa morte mística entra na vida eterna.
Todo homem que se recusa a passar por essa morte mística cai vítima
da morte eterna...