quarta-feira, 3 de outubro de 2012

EXISTÊNCIAS FRAGMENTADAS

O ego, utilizando-se de técnicas para mascarar-se, recorre com freqüência
a mecanismos sutis, quando se vê defrontado pelo dever de assumir responsabilidades
que se derivam dos atos insensatos, tais como transferência de
culpa e autopunição.
No primeiro caso, torna-se-lhe mais fácil, racionalmente, fugir para a
inocência e a fragilidade, direcionando acusações a outrem, do que enfrentarse,
e, no segundo caso, o recurso da autopunição castradora e infeliz, como
anestésico para a consciência e liberação de um conflito, mesmo que gerando
outros.
Reprimindo-se desde a infância mal vivida, o ser escamoteia os
sentimentos e procura viver conforme os estereótipos convencionais,
impedindo-se a auto-realização, o enfrentamento lúcido, a coragem para assumir
responsabilidades e delas desincumbir-se sem conflito.
Ansiando por liberdade, defronta os impedimentos sociais e
comportamentais, passando a ocultar os sentimentos e sofrer insatisfações que
se sombreiam com perturbações psicológicas e desencantos.
Não se resolvendo por lutar contra os impedimentos à felicidade — que é a
harmonia interior em identificação com os propósitos de elevação — vive
fragmentariamente, tornando a existência um fadário de pesada condução.
Somente por intermédio de uma resolução firme é que pode romper os
fortes elos que o prendem aos sofrimentos desnecessários, mantendo a
decisão de não se furtar às conseqüências, e superá-las a qualquer preço.
Os gregos antigos, experimentando as mesmas injunções psicológicas,
conceberam, através da Mitologia, os referenciais para bem traduzirem as
ocorrências e seus efeitos, em bem entretecidas catarses, que ainda servem
de modelo para um bom entendimento dos conflitos humanos e suas soluções.
No mito de Prometeu, por exemplo, vemo-lo roubando o fogo sagrado de
Zeus, a fim de auxiliar aos homens que se encontravam condenados às
grandes trevas.
Surpreendido, foi aprisionado por trinta séculos, acorrentado a um rochedo, até
ser libertado por Heracles.
Nesse período, tinha o fígado exposto a um abutre que o devorava
incessantemente, enquanto o mesmo se refazia, a fim de que o seu fosse um
suplício sem limite.
Face à trágica ocorrência, quando ficou livre, aconselhou ao irmão
Epimeteu, que se mantivesse advertido e lúcido, não aceitando presente algum
de Zeus, que certamente planejava desforço.
Invigilante, porém, Epimeteu deixou-se seduzir por bela jovem que Zeus
lhe enviara, e que conduzia uma preciosa caixa.
Tratava-se de Pandora que, após conquistá-lo e dominá-lo, abriu o cofre e
espalhou o bafio das pestes, do sofrimento, das misérias que passaram a
predominar no mundo...
Apesar de admoestado, o irresponsável deixou-se conduzir pela
imprevidência egóica, passando a sofrer-lhe as conseqüências, e tornando-se
causador das desgraças humanas.
Prometeu, como o nome significa, é aquele que prevê, que percebe antes,
enquanto Epimeteu é o que desperta tardiamente, que toma conhecimento

depois.
O ego astuto não aceita as sugestões do Self, que o adverte, e,
imediatista, ambiciona o prazer voluptuoso, sem preocupação com os
resultados da precipitação, da irreflexão.
Quando desperta, como ocorreu com Epimeteu, os danos já se
avolumaram, e, ao invés de assumir as responsabilidades, transfere-as para os
outros ou autopune-se em mecanismos de consciência de culpa e sentimentos
de remorso.
Todas as advertências que lhe são apresentadas soam sem significação,
porque deseja a própria satisfação, a imediata e tormentosa sensação saciada,
que somente se converte em nova inquietação desencadeadora de diferentes
conflitos.
O ser, porém, está destinado à plenitude, à auto-realização embora os
desafios e as dificuldades aparentes que lhe surgem durante o período de
crescimento.
A planta que germina arrebenta o claustro no qual a semente jaz
encarcerada, desenvolvendo todos os conteúdos que a tipificam.
Nessa ruptura, desabrocha o fatalismo biológico que a conduz à totalidade.
As heranças das formas primevas pelas quais passou o ser humano no
seu processo antropológico, repetem-se desde o zigoto ao feto, à criança
libertada do sacrário materno.
Os valores psicológicos, da mesma forma, ressumam das experiências
humanas vividas antes, apresentando-se como tendências e conflitos,
frustrações e egotismos, que se expressam no ser como recurso de segurança.
Os impulsos egóicos remanescentes dos instintos básicos, porém, devem
ceder espaço às realizações conscientes, à diluição das mazelas e angústias,
identificando a própria realidade.
Como resultado, não é lícito culpar os demais, menos ainda manter a
atitude autopunitiva, masoquista.
O Prometeu que jaz no inconsciente em forma de reflexão e cuidado nas
decisões psicológicas, deve tomar o lugar de Epimeteu, o malsucedido
aventureiro e sonhador.
Qualquer tentativa de autopunição deverá ser substituída pela aquisição da
auto-estima e da boa orientação para o logro da saúde mental e
comportamental.
Face, porém, a qualquer tentação de transferir culpa para outrem, cabe a
luta para assumir a coragem da responsabilidade sem conflito, compreendendo
que se trata de experiência que libera a existência de fragmentação.
Essa atitude mental e de comportamento ético libera o germe de vida
superior que também se encontra em todos os seres humanos à semelhança
da flor e do fruto dormindo no silêncio da semente que é portadora de vida e de
bênçãos.