terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Perfeição versus perfeccionismo

“... E se vós não saudardes senão vossos irmãos, que fazeis nisso
mais que os outros? Os pagãos não o fazem também? Sede pois, vós
outros, perfeitos, como vosso Pai Celestial é perfeito...”






As tendências ao perfeccionismo têm raízes profundas e escondidas
revelando, às vezes, um grande medo indefinido e oculto. A diferença principal
entre um indivíduo saudável e o perfeccionista é que o primeiro controla sua
própria vida, enquanto o segundo é controlado sistematicamente por sua
compulsão pertinaz.
Trazemos como somatório de múltiplas existências crenças negativas de
que nosso valor é medido por nossos desempenhos bem-sucedidos e que os
erros nos rebaixariam o merecimento como pessoa. Daí as emoções
desconexas de medo, de desagrado e de punição. Como exemplo, pensamos
inconscientemente que, se formos imperfeitos e falhos, as pessoas não vão
mais confiar em nós, ou jamais teremos sucesso na vida, O transtorno dos
perfeccionistas é não se aceitarem como espíritos falíveis, não aceitando
também os outros nessa mesma condição, tentando assim agradar a todos e
lhes corresponder às expectativas.
Às vezes os perfeccionistas podem até pensar, mas não admitem: “se eu
fracassar, vão me criticar”; em outras ocasiões, insistem em dizer que “não
pensam assim”, demonstrando, porém, o contrário, pois ficam profundamente
descontrolados quando cometem algum erro.
Cenas fixações pelo desempenho perfeito são necessidades de
aprovação e carinho que nasceram durante a infância: “Se você não fizer tudo
certinho, a mamãe e o papai não vão gostar mais de você”. São vozes do
passado que ecoam até hoje nas mentes perfeccionistas.
Esses distúrbios de comportamento levam, em muitas situações, os
indivíduos a uma lentidão superlativa para fazer as coisas. Querem fazer tudo
com tantos detalhes e precisão que nunca acabam o que estão fazendo.
Outros são conhecidos pelo nome de proteladores, ou seja, adiam
sistematicamente a ação, por temer um desempenho imperfeito. Por exemplo,
se começam a apontar um lápis, levam o objeto à destruição em alguns
minutos, pela busca milimétrica da perfeição. Outros sintomas ou sinais mais
comuns:
certas pessoas são obcecadas em dispor as coisas simetricamente, de modo
que não fiquem um centímetro fora do lugar. Quanto mais verificam, mais
querem checar e mais têm dúvidas.
Os perfeccionistas necessitam ser impecáveis, respondem a todas as
perguntas, mesmo àquelas que não sabem corretamente. Por possuírem
desordens psíquicas, buscam incessantemente controlar a ordem exterior,
vigiando os comportamentos alheios como verdadeiros juízes da moral e dos
costumes.
Por não admitirmos o erro e por não percebermos que o único fracasso
legítimo é aquele com o qual nada aprendemos, éque os conceitos de
perfeição doentia perturbam constantemente nossa zona mental. Por isso, oerro não deve ser considerado como perda definitiva, mas apenas uma
experiência de aprendizagem.
“Sede pois, vós outros, perfeitos, como vosso Pai Celestial é perfeito” -
disse-nos Jesus Cristo. Entretanto, não nos conclama com essa assertiva para
que tomemos “ares” de perfeição presunçosa, e sim que nos esforcemos para
um crescimento gradual no processo da vida, que nos dará oportunamente
habilidades cada vez maiores e melhores.
Somos todos convocados pelo Mestre ao exercício do aperfeiçoamento,
mas contemos com o tempo e a prática como fatores essenciais, esquecendo a
perfeição doentia, atrelada a uma “determinação martirizante e desgastante”,
que nos faz despender enorme carga energética para manter uma aparência
irrepreensível.
Repensemos o texto cristão, refletindo se estamos buscando o
crescimento rumo à perfeição, ou se estamos simulando possuir uma santidade
que não suporta sequer o toque da menor contrariedade