quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Preconceito

“... Tendo-o visto, lhe disse: Zaqueu, apressai-vos em descer, porque
é preciso que eu me aloje hoje em vossa casa. Zaqueu desceu logo e o
recebeu com alegria. Vendo isso, todos murmuraram dizendo: Ele foi
alojar-se na casa de um homem de má vida...”


Diz-se que um indivíduo atingiu um bom nível ético quando pensa por si
mesmo em termos gerais e críticos; quando dirige sua conduta conforme julgar
correto, demonstrando assim independência interior; quando é autônomo para
definir o bem e o mal, sem seguir fórmulas sociais; e, por fim, quando não é
escravo das suas crenças inconscientes, porque faz constante exercício de
autoconhecimento.
Por nosso quadro de valores ter sido adquirido de forma não vivencial é
que nosso mundo íntimo está repleto de preconceitos e nosso nível ético
encontra-se distante da realidade.
Ter preconceitos é, pois, assimilar as coisas com julgamento
preestabelecido, fundamentado na opinião dos outros. Os preconceitos são as
raízes de nossa infelicidade e sofrimento neurótico, pois deterioram nossa
visão da vida como uma lasca que inflama a área de nosso corpo em que se
aloja.
Aceitamos esses valores dos adultos com quem convivemos, de uma
maneira e forma tão sutis que nem percebemos. Basta a criança observar um
comentário sobre a sexualidade de alguém, ou a religião professada pelos
vizinhos, para assimilar idéias e normas vivenciadas pelo adulto que promove a
crítica. De maneira distorcida, baseia-se no julgamento de outrem, quando é
válido somente o autojulgamento, apoiado sempre na análise dos fatos como
realmente eles são.
Qual seria então tua visão atual a respeito do sexo, religião, raça,
velhice, nação, política e outras tantas? Seriam formadas unicamente sem a
influência dos outros? Será que tua forma de ver a tudo e a todos não estaria
repleta de obstáculos formados pelos teus conceitos preestabelecidos?
Por não estares atento ao processo da vida em ti, é que precisas do
juízo dos outros, tornando-te assim dependente e incapacitado diante de tuas
condutas.
Jesus de Nazaré demonstrou ser plenamente imune a qualquer
influência alheia quanto a seus sentimentos e sentidos de vida, revelando isso
em várias ocorrências de seu messiado terreno.
Ao visitar a casa de Zaqueu, não deu a mínima importância aos
murmúrios maldizentes das criaturas de estrutura psicológica infantil, pois sabia
caminhar discernindo por si mesmo.
Toda alma superior tem um sistema de valores não baseado em regras
rígidas; avalia os indivíduos, atos e atitudes com seu senso interior,
sentimentos, emoções e percepções intuitivas, tendo assim apreciações e
comportamentos peculiares. Para ela, cada situação é sempre nova e cada
pessoa é sempre um mundo à parte.
Em verdade, Cristo veio para os doentes que têm a coragem de
reconhecer-se como tais, não porém para os sãos, ou para aqueles que se
mascaram. Zaqueu, vencendo os próprios conceitos inadequados de chefe dos
publicanos, derrubou as barreiras do personalismo elitista e rendeu-se à
mensagem da Boa Nova.
Despojou-se do velho mundo que detinha na estrutura de sua
personalidade e renovou-se com conceitos de vida imortal, aceitando-se como
necessitado dos bens espirituais. Disse Jesus:
“O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”. (1)
Ao dizer isso, o Mestre se referia ao antigo mandamento de Moisés, que
impedia toda e qualquer atividade aos sábados, e que Ele, por sabedoria e por
ser desprovido de qualquer preconceito, entendia a serventia dessa lei para
determinada época, porém queria agora mostrar aos homens que “as
experiências passadas são válidas, mas precisam ser adequadas às nossas
necessidades da realidade presente”.
Nossos preconceitos são entraves ao nosso progresso espiritual.
(1) Marcos 2:27.