segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Velhos hábitos

“... O corpo não dá cólera àquele que não a tem, como não dá os
outros vícios; todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao
Espírito; sem isso, onde estariam o mérito e a responsabilidade?...”








Em primeiro lugar, é necessário conceituar que vícios são dependências
vigorosas e profundas de uma pessoa que se encontra sob o controle de outras
ou de determinadas coisas.
Portanto, deve ser considerado como vício não apenas o consumo de
tóxicos e de outros produtos de origem natural ou sintética. O conceito é mais
amplo. Analisando-o em profundidade, podemos interpretá-lo como atitude
mental que nos leva compulsoriamente à subjugação a pessoas e situações.
Muitos de nós aprendemos a ser dependentes desde cedo, dirigidos por
adultos superprotetores que nos imprimiram “clichês psíquicos” de repressão,
que se refletem até hoje como mensagens bloqueadoras dentro de nós e que
não nos deixam desenvolver o “senso de autonomia” e de independência.
Outros trazem enraizadas experiências em que lhes foi negada a possibilidade
de exercer a capacidade de seleção de amigos e parceiros afetivos, em virtude
da intervenção de adultos prepotentes. Essa nociva interferência torna-os mais
tarde indivíduos de caráter oscilante, indecisos, assustados e inseguros. Outros
ainda, por terem sofrido experiências conflitantes em outras encarnações, em
contato com criaturas desequilibradas e em clima de inconstância e
desarmonia, são predispostos a renascer hoje com maior identificação com a
instabilidade emocional.
Dessa forma, entendemos que os fatores que propiciam os vícios e as
compulsões ocorrem em ambientes familiares-sociais desarmônicos, desta ou
de outras encarnações, onde deixamos as pressões, traumas, coações,
desajustes e conflitos se enraizarem em nossa “zona mental” ou “perispiritual”,
porqüanto os vícios não passam de efeitos externos de nossos conflitos
internos.
Vale ressaltar que nossa sociedade, a rigor, é extremamente “machista”,
razão pela qual muitas mulheres foram educadas para aceitar comportamentos
dependentes como sendo “virtudes femininas”, o que as leva a viver dentro de
“demarcações estreitas” do que elas devem ou podem fazer.
O vício do álcool, sexo, nicotina, jogos diversos ou drogas
farmacológicas são formas amenizadoras que compensam,
momentaneamente, áreas frágeis de nossa alma desestruturada.
Aliviam as carências, as ansiedades, os desajustes, as tensões
psicológicas e reduzem os impulsos energéticos que produzem as
insatisfações e o chamado “mal-estar interior”.
Pode parecer que as opções vício-dependência disfarcem ou abrandem
a “pressão torturante”, porém o desconforto permanece imutável.
O álcool e a droga são sedativos ou analgésicos, mas por acarretar
gravíssimas conseqüências, são denominados “vícios autodestrutivos”. A
comida é uma dependência considerada, de início, “vicio neutro”, para, depois,
transformar-se numa “opção de fuga” negativa e profundamente
desorganizadora do nosso corpo físico-psíquico.
Há manias ou vícios comportamentais tão graves e sérios que nos
levam a ser tratados e considerados como pessoas de difícil convivência, isto
é, inconvenientes:
— Vício de falar descontroladamente, sem raciocinar, desconectandonos
do equilíbrio e do bom senso.
— Vício de mentir constantemente para nós mesmos e para os outros,
por não querermos tomar contato com a realidade.
— Vício de nos lamentarmos sistematicamente, colocando-nos como
vítima em face da vida, para continuarmos recebendo a atenção dos outros.
— Vício de nos acharmos sempre certos, para podermos suprir a
enorme insegurança que existe em nós.
— Vício incontido de gastar desnecessariamente, sem utilidade, a fim de
adiarmos decisões importantes em nossa vida.
— Vício de criticar e mal julgar as pessoas, para nos sentirmos maiores
e melhores que elas.
— Vício de trabalhar descontroladamente, sem interrupção, para nos
distrairmos interiormente, evitando desse modo os conflitos que não temos
coragem de enfrentar.
Inquestionavelmente, as chamadas viciações resultam do medo de
assumir o controle de nossa vida e, ao mesmo tempo, do medo de nos
responsabilizarmos por nossos atos e atitudes, perniltindo que eles fiquem fora
de nosso controle e de nossas escolhas.
Quaisquer que sejam, contudo, os motivos e a origem de nossos “velhos
hábitos”, urge estabelecermos pontos fundamentais, a fim de que comecemos
indagando “por que somos” dependentes emocionalmente e “qual é a forma”
de nos relacionarmos com essa dependência.
Aqui estão alguns itens a ser também observados e que provavelmente
nos ajudarão a ser mais independentes, além de capazes de satisfazer nossos
desejos e vocações naturais. Ao mesmo tempo, nos permitirão estar junto a
pessoas e situações sem tomar-nos parcial ou totalmente dependentes delas:
— Aguçar nossa capacidade de decidir, de optar e de escolher cada vez
mais livre das opiniões alheias.
— Combater nossa tendência de ser “bonzinhos”, ou melhor, de desejar
ser sempre agradáveis aos outros, mesmo pagando o preço de nos
desagradar.
— Estimular nossa habilidade de dizer “não”, quantas vezes forem
necessárias, desenvolvendo assim nosso “senso de autonomia”, a fim de não
cair nos “modismos” ou “pressões grupais”.
— Estabelecer no ambiente familiar um clima de respeito e liberdade,
eliminando relações de superdependência “simbióticas”, para que possamos
ser nós mesmos e deixemos os outros ser eles mesmos.
— Criar padrões de comportamentos positivos, pois comportamentos
são hábitos, e nossos hábitos determinam a facilidade de aceitarmos ou não as
circunstâncias da vida.
— Conscientizar-nos de que somos seres humanos livres por natureza,
mas também responsáveis por nossos atos e pensamentos, pois recebemos
por herança natural o livre-arbítrio.
— Cultivar constantemente o autoconhecimento:
- reforçando nossa visão nos traços de nossa personalidade que já
conhecemos;
- buscando nossos traços interiores, que ainda nos são desconhecidos;
- analisando as opiniões de outras pessoas que, ao contrário de nós, já
conhecemos nosso perfil psicológico;
- aceitando plenamente nosso lado “inadequado”, sem jamais escondêlo
de nós mesmos e dos outros, tentando, porém, equilibrá-lo.
Meditemos, pois, sobre essas ponderações que, com certeza, nos
ajudarão a libertar-nos dessas “necessidades constrangedoras”, cujas
verdadeiras matrizes se encontram na intimidade de nós mesmos.