terça-feira, 6 de novembro de 2012

Apascentar as minhas ovelhas

João, 21:15-17
Após a refeição que oferecera aos discípulos, Jesus conversou com Simão Pedro.
Em dado momento, perguntou-lhe:
– Simão, filho de Jonas, tu me amas?
– Sim, Senhor, tu sabes que te amo.
– Apascenta as minhas ovelhas.
Após breve pausa, reiterou:
– Simão, filho de Jonas, tu me amas?
– Sim, Senhor, tu sabes que te amo.
– Apascenta as minhas ovelhas!
Novo silêncio, nova expectativa, e a mesma indagação:
– Simão, filho de Jonas, tu me amas?
O apóstolo entristeceu-se com aquela insistência, que parecia transpirar um sentimento de dúvida quanto à sua fidelidade.
– Senhor, conheces todas as coisas e sabes que te amo!
– Apascenta as minhas ovelhas.

***
Não apenas Simão Pedro, mas outros discípulos presentes terão estranhado que o Mestre houvesse indagado três vezes quanto à autenticidade de seu afeto.
Obviamente, Jesus tinha plena consciência do carinho que os companheiros lhe devotavam.
Mas sabia, também, que na gloriosa jornada de divulgação do Evangelho haveriam de enfrentar problemas e dificuldades, lutas e perseguições.
Para que obtivessem sucesso, fundamental o amor pela causa. Somente assim teriam o ânimo necessário para perseverar.
Ao insistir com Simão Pedro, Jesus passava essa mensagem à comunidade cristã.
O amor por ele deveria derramar-se no trabalho que lhes competia. Apascentar as ovelhas seria transmitir suas lições pelo exemplo de amorosa dedicação ao Bem.

***
No que fazemos de melhor, em qualquer setor de atividade, há sempre um componente básico: o amor.
A melhor dona de casa, o melhor chefe de família, o melhor funcionário, o melhor empresário, o melhor atleta, será sempre aquele que se dedica às suas funções, não por obrigação, dever ou interesse, mas, simplesmente, por amar o que faz.
Nos serviços de voluntariado, cursos e reuniões mediúnicas, no Centro Espírita, distinguem-se claramente os que participam com o objetivo de receber benefícios daqueles que o fazem por amor.
Os primeiros são inconstantes. Pouco assíduos, afastam-se à primeira dificuldade ou divergência, ao primeiro problema particular. Não se pode contar com eles.
Os segundos empenham-se, têm imaginação, desenvolvem as tarefas, aprimoram os serviços, doam-se em boa vontade, dedicação, carinho pelo serviço.
No CEAC, em Bauru, há múltiplos departamentos, envolvendo evangelização, mocidade, creche, biblioteca, livraria, clube do livro espírita, albergue, centro de triagem de migrantes, casa de passagem, núcleos de periferia, orientação às gestantes, assistência hospitalar, assistência às prisões…
Embora sejam serviços diversificados, têm um ponto em comum: cada um deles foi montado e é sustentado por idealistas, que amam o que fazem!
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Há uma história interessante a esse respeito, envolvendo excelente mãe de família.
Cozinheira de mão cheia, fazia quitutes de dar água na boca. Seus bolos eram uma tentação, verdadeiro manjar dos deuses.
Seu segredo: uma caixa metálica. Havia ali um ingrediente mágico que sua mãe lhe dera. Dava sabor especial a qualquer alimento que preparasse.
Não deixava ninguém pegar na caixa. Seu conteúdo, dizia, era extremamente volátil, poderia perder-se e não havia como repor.
Submetendo-se a uma cirurgia, esteve alguns dias hospitalizada. O marido ficou perdido. A esposa era a luz que iluminava sua existência, isso sem falar nos manjares dos deuses que preparava.
À noite, sozinho em casa, imaginou o que comer.
Abriu a geladeira e pegou um pedaço de bolo feito pela cara-metade. A delícia de sempre!
Enquanto comia, abriu um armário e viu a misteriosa caixa.
Baixou nele o espírito feminino – a curiosidade.
Se você, leitora amiga, não gostou desse “espírito feminino”, lembre-se de que segundo a fantasia bíblica, perdemos o paraíso por causa da curiosidade de Eva.
Bem, essa é outra história.
Com infinito cuidado, abriu a caixa. Para sua surpresa, estava praticamente vazia. Tinha apenas um pedaço de papel dobrado.
Abriu. Era um bilhete singelo de sua sogra.
Minha filha, em tudo o que fizer, acrescente uma pitada de amor.
Era esse o seu segredo.
Fazer com amor!
Nem deveria ser segredo.
É algo que todos precisam saber.
Se quisermos fazer bem, façamos com amor.
Era isso que Jesus esperava dos discípulos.
Esse amor ao trabalho, amor ao que fazemos, amor ao ideal, é algo espontâneo, entranhado em nós, mas nasce, também, a partir de elementar iniciativa:
Aprender a gostar do que fazemos, ainda que convocados a fazer algo de que não gostamos.

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Em O Evangelho segundo o Espiritismo Allan Kardec evidencia que a Doutrina Espírita é Jesus de retorno, na excelência de seus ensinamentos.
É o Consolador prometido, o Espírito de Verdade que nos traz lições e esclarecimentos que não tínhamos condições para receber há dois mil anos.
E se o Espiritismo é bom para nós, oferecendo-nos ampla visão dos porquês da Vida, há de ser bom, também, para aqueles que nos rodeiam.
Importante, portanto, que nos disponhamos à sua divulgação.
E como fazê-lo com eficiência?
O caminho é o mesmo preconizado por Jesus.
É preciso que tenhamos amor pelo Espiritismo, que nos envolvamos com seus princípios, procurando vivenciá-los.
A base sobre a qual devem ser erigidas as edificações mais nobres da Doutrina, hoje e sempre, é o nosso comportamento.
Não há outra maneira de demonstrarmos a excelência dos princípios espíritas senão incorporando-os à própria existência.
Que sejamos tão cordatos, honestos, respeitosos, diligentes, íntegros, que as pessoas olhem para nós e digam:
– O Espiritismo deve ser algo sublime, para forjar um caráter tão nobre, uma tal pureza de sentimentos!

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Obviamente, a vivência da doutrina implica, também, no empenho de apascentar as ovelhas, como ensina Jesus.
Apascentar, no sentido evangélico, seria cuidar.
Quem são as ovelhas?
A tradição religiosa pretende sejam os que aceitam Jesus e passam a fazer parte de seu rebanho. Diversas seitas cristãs consideram ovelhas apenas os irmãos de fé.
Já ouvimos de pregadores evangélicos a inacreditável afirmação de que são filhos de Deus os que foram batizados em suas crenças.
Os de fora são apenas criaturas.
Considerando que somente trinta por cento dos habitantes da Terra são cristãos, chegamos à espantosa idéia de que setenta por cento estão à margem da paternidade divina e de suas graças.
E como, segundo essas doutrinas, Jesus é o caminho para o Céu, dois terços da Humanidade jamais terão acesso, porque sequer o conhecem.
Isso é discriminação, algo inconcebível no cristão.

***
A Doutrina Espírita nos oferece uma visão mais racional e lógica. Todos somos filhos de Deus, seja qual for a nossa raça, nacionalidade ou crença.
E Jesus não é o pastor de algumas ovelhas.
É o pastor de todas as ovelhas.
É o governador de nosso planeta, que assumiu perante Deus o compromisso de nos conduzir pelas sendas do progresso, rumo à perfeição.
Então, o católico, o evangélico, o espírita, tanto quanto o budista, o muçulmano, o judeu, o hinduísta, o xintoísta, ou o próprio materialista, somos todos filhos de Deus, orientados pelo Cristo.
Mesmo os que não o conhecem ou não o aceitam como guia, pertencem ao seu rebanho, da mesma forma que alguém que desconhece ou renega o pai não deixa de ser seu filho.
Seja qual for a nossa nacionalidade, raça ou crença, permanecemos todos sob a égide de Jesus, conduzidos por suas mãos compassivas. Ainda que demande o concurso dos milênios, terminaremos em seus caminhos.
O que o Mestre espera de nós, que já o conhecemos, é que estejamos dispostos a colaborar em sua Seara.
Quando chegar a nossa hora, quando retornarmos à vida espiritual, a avaliação básica, como cristãos, será: Quantas ovelhas apascentamos, quanto amor demos ao semelhante, no esforço do Bem?

Antes que o Galo cante/Richard Simonetti