sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MILITÃO PACHECO

O Doutor Augusto Militão Pacheco foi a seu tempo uma das mais destacadas figuras do Espiritismo em São Paulo. Quase nada se fazia sem que a sua veneranda pessoa tomasse parte ativa, o que o tornava um verdadeiro vexilário das grandes idéias e realizações.
Sua conversão ao Espiritismo ocorreu ao dealbar do século vinte (1901 ou 1902). Materialista que era resolveu um dia pôr à prova o que lhe diziam sobre a continuidade da vida após a morte. Comparecendo a uma sessão espírita, aí se deu interessantíssima e inesperada comunicação de pessoa de sua família, já desencarnada e de todo o seu afeto. Isto bastou para que ele se pusesse a estudar os livros básicos da Doutrina, vindo a ser um espírita de fundas convicções. Desde então aplicaria todo o seu tempo na caridade material e espiritual a quantos lhe fossem, a casa ou ao consultório.
Militão Pacheco, filho de José Silvestre Pacheco e Gertrudes Pacheco, encarnou no dia 13 de junho de 1866, vindo a desencarnar na cidade de São Paulo, no fia 7 de julho de 1954, com a avançada idade de 88 anos bem vividos.
Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, no ano de 1894, Militão Pacheco foi nesse mesmo ano convidado a ir ao Estado do Maranhão, a fim de combater um surto de peste bubônica que grassava naquela região norte do Brasil. Apesar de não existir lá qualquer hospital de isolamento e nem condições adequadas para o combate àquela enfermidade, dirigiu-se para ali, em companhia do diretor do Hospital de Isolamento de São Paulo, dois médicos mineiros e mais um outro, conseguindo assim debelar a terrível epidemia.
Mais tarde, foi convidado para ser o diretor do Serviço Sanitário do Estado do Maranhão, pelo período de dois anos. Levou consigo a esposa e três filhos, mas, após oito meses de atividades intensas, renunciou ao cargo, por não ver atendidas as suas reivindicações, imprescindíveis para o bom andamento dos serviços.
Um outro fato veio mudar o rumo de sua vida. Sua esposa vinha sofrendo pertinaz cefaléia havia alguns anos, tendo mesmo esgotado todos os recursos da medicina alopática. Visitando a família do Juiz de Direito de Campinas, ela teve ali uma de suas crises. A esposa do juiz pediu permissão para recomendar-lhe um remédio homeopático. O Doutor Pacheco adquiriu o remédio em apreço e sua esposa iniciou o seu uso. Após essa ocorrência, ela teve apenas duas ameaças de crise e o mal desapareceu por completo. O Dr. Militão, que vinha exercendo a medicina alopática havia cinco anos, procurou então o único médico homeopata existente em Campinas, introduzindo-se no conhecimento da Homeopatia e obtendo alguns livros a titulo de empréstimo. Dali por diante, Militão Pacheco deixou, por completo, de prescrever alopáticamente.
No dia 23 de julho de 1896, através de decreto assinado pelo então presidente do Estado de São Paulo e por Gustavo de Oliveira Godoy, Militão Pacheco é nomeado, em comissão, para exercer o cargo de Inspetor Sanitário do Estado de São Paulo, cargo no qual foi efetivado em 26 de setembro do mesmo ano, exercendo-o até o ano de 1920, quando se aposentou.
Militão Pacheco exerceu durante mais de 50 anos, na capital paulista, o apostolado da Medicina. E dizemos o apostolado, porque foi um notável médico, no sentido cordial, humanitário, prestativo, criatura que se consagrou inteiramente ao próximo, realizando gigantesco trabalho de assistência individual e coletiva, como poucos realizaram na Terra. O “Diário de São Paulo”, em sua edição de 27 de junho de 1944, publicou extensa reportagem em torno das festividades comemorativas do cinqüentenário de formatura e de exercício de profissão do Doutor Augusto Militão Pacheco. Através dos discursos proferidos na oportunidade, ficaram evidenciados verdadeiros rasgos de generosidade e de amor, emanados da figura inconfundível daquele que tinha em alta conta a dignidade humana e o sacerdócio da Medicina.
Foi sempre de incomparável bondade no tratamento de todos os seus incontáveis clientes. Figura plutarquiana, retornou ao mundo espiritual abençoado por milhares de corações, legando aos homens uma vida que foi autêntico modelo de virtude, um exemplo de incomparável beleza moral, oriunda de um caráter reto e de uma diretriz moral a toda prova. Muitas pessoas, que não podiam pagar as consultas, eram atendidas e, não raro, voltavam com o auxílio financeiro para a aquisição dos remédios prescritos por aquelas mãos abençoadas.
Na Seara Espírita, foi fundador e diretor de antiga sociedade espírita, que tão excelentes frutos produziu, e que se chamou “União Espírita de Santo Agostinho”.
Participou da fundação da Associação Espírita “São Pedro e São Paulo”, da qual foi abnegado e criterioso presidente, tendo mantido em sua sede, com desvelo cristão, um dispensário gratuito, que atendia a grande número de pobres.
Exerceu o cargo de 1º. Secretário da Associação Feminina Beneficente e Instrutiva do Estado de São Paulo, fundada por Anália Franco, quando aquela Associação teve por diretor o Doutor Canuto Abreu.
A Federação Espírita do Estado de São Paulo – a tradicional Casa da rua Maria Paula, na capital bandeirante – teve em Militão Pacheco um dos elementos que mais propugnaram pela sua criação. E a reunião convocada para apreciar a redação final dos estatutos sociais, e proceder à eleição da primeira diretoria, foi por ele presidida em 12 de junho de 1936. Dessa primeira diretoria, Militão ocupou o cargo de vice-presidente, constituindo-se naquela respeitável e progressista Instituição um dos seus mais abalizados conselheiros.
No terreno filosófico, conquanto Militão Pacheco fosse grande admirador de geniais pensadores da várias escolas, pois era um cidadão independente e portador de grande cultura intelectual e científica, nunca negou a sua incondicional dedicação à Doutrina Espírita, tornando-se um dos espíritas mais respeitados e dignos do Estado de São Paulo e mesmo do Brasil. Médico essencialmente homeopata, honrou e dignificou a medicina hahnemaniana, tendo consagrado ao Espiritismo, ou à Doutrina da Reencarnação e da Imortalidade, o melhor de sua esplêndida e proveitosa existência. Era na realidade autêntica fonte inesgotável destinada a suavizar as dores do corpo e minorar os sofrimentos do espírito.
Apesar de ter sido um dos médicos de clínica mais numerosa em São Paulo, morreu na pobreza, porém sobejamente rico em virtudes cristãs.
Aos 2 de junho de 1968, a Associação Paulista de Homeopatia inaugurava, solenemente, na Praça Marechal Deodoro, na capital de São Paulo, um monumento comemorativo em memória destes vultos da Homeopatia Nacional: Alberto Seabra, Antônio Murtinho Nobre e Augusto Militão Pacheco.
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Reproduzimos a seguir, com o objetivo de propiciar maiores dados acerca da vida exemplar de Militão Pacheco, alguns trechos de uma crônica do escritor e jornalista Irmão Saulo, publicada no “Diário de São Paulo”, dias após a desencarnação daquele vulto espírita, e intitulada: “No Espiritismo como na Medicina, Militão Pacheco foi um exemplo”. Seguem, logo após, duas crônicas da ilustre e notável escritora Dinah Silveira de Queiroz, publicadas no “Jornal do Commércio”, do Rio de Janeiro, edições de 26/27 e de 31 de julho de 1954, intituladas “Um Santo Que Eu Conheci” e “O Testamento do Santo”.
Leiamos, então, primeiro, alguns trechos respingados do supracitado trabalho do “Irmão Saulo”:
“Médico dotado de sólida cultura e larga inteligência, podia Militão Pacheco ter feito no mundo o que se costuma chamar “uma carreira brilhante”. Exerceu funções importantes no “Serviço Sanitário do Estado”, tendo prestado relevante contribuição à campanha contra a febre amarela, ao empregar os seus conhecimentos de sanitarista em várias cidades, como São Simão, Cosmópolis, Mogi-Mirim e Amparo”.
“Durante muito tempo, nada se podia fazer, em São Paulo, em matéria de Espiritismo, sem o concurso de Militão Pacheco. Ele representava uma bandeira, sem a qual nenhum batalhão se sentiria encorajado a marchar. O Espiritismo era então grandemente hostilizado, muito mais do que hoje. E Augusto Militão Pacheco lhe oferecia o anteparo do seu nome de médico, inteligente e culto e, sobretudo, de homem íntegro”.
“Um amigo que, durante cerca de vinte anos fora seu companheiro de trabalhos, contou-nos que, certo dia, tendo de fazer um recibo para uso interno, dispensou o selo. Militão Pacheco o repreendeu imediatamente: - Faça novo recibo e ponha os selos. Isso é um roubo. E nós, espíritas, não podemos apenas pregar, temos de dar o exemplo. Este pequeno episódio basta para mostrar a têmpera do homem que, há apenas quatro dias, concluiu a sua longa tarefa, de 88 anos, neste mundo sublunar. Sua severidade em matéria de honestidade, de retidão, de direito, tornou-se proverbial no meio espírita”.
“Em todas as religiões, e até mesmo fora das religiões, encontramos, graças a Deus, caracteres assim, que constituem o ”sal do mundo “, da linguagem evangélica”.
“Profundamente caridoso, mas dessa caridade natural, que nasce do coração e não vive de intenções, Militão distribuía sistematicamente uma parte dos seus recursos a pessoas e famílias pobres. E apesar de ter sido um dos médicos de clínica mais numerosa de São Paulo, morreu pobre, ele também. Quando curou Dino Bueno, vice-governador do Estado, numa época em que os médicos de fama já cobravam fortunas pelas consultas, fez questão de receber os seus numerários na base de vinte mil réis por consulta. E o doente lhe fora parar às mãos depois de desenganado!”.
“Monteiro de Barros prestou assistência ao seu mestre, como médico, amigo e filho espiritual, até os últimos instantes. E nos conta, comovido, que Militão Pacheco sabia estar chegando o termo da existência terrestre, o que muito o alegrava. No derradeiro momento, chamou-o e lhe disse: - Que Deus pague, a vocês, tudo o que fizeram por mim. E que vocês recebam, com a mesma serenidade com que estou recebendo, este fenômeno da morte, que é uma misericórdia de Deus. Estou-me desencarnado conscientemente”.
“E foi assim, conscientemente, que Augusto Militão Pacheco abandonou na Terra seu velho corpo material, após 88 anos de uso, para voltar ao mundo espiritual”.
“Esse homem exemplar era casado com D. Alice Mendes Pacheco e deixou numerosos filhos, netos e bisnetos. Mas sua família maior, mais numerosa, e que, como a outra, também jamais o esquecerá, é a família espírita de São Paulo e do Brasil”.
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Agora, apreciemos as duas crônicas de Dinah Silveira de Queiroz:
Um Santo Que Eu Conheci
Chamava-se Doutor Militão Pacheco, e foi um bem espiritual de minha vida. Hoje, quando acabo de ter a notícia de sua morte, não sinto angústia. Nem sequer sinto pena. Uma sensação talvez de distância maior, como se ele embarcasse para uma excelente viagem, fosse para uma Europa melhor e mais radiosa do que a que costumamos visitar.
Um santo vive para morrer. E é agora que realmente se cumpre o sentido de existência de um homem como o Dr. Pacheco. Posso visualizá-lo, como se ele estivesse aqui ao meu lado. Até fisicamente era marcado pela sua santidade. Vejo os seus olhos febris, brilhantes e profundos. A sua barbicha de apóstolo, a sua mansidão, o seu riso silencioso, mas expansivo, e que era uma retribuição à gente – mais do que uma alegria. Do tempo da minha infância, vou extraindo passagens singulares. De vez em quando – seriam as amídalas, alguma gripe, uma simples indigestão de criança? – lá vinham a febre enorme, e minha mãe telefonava ao Dr.Pacheco. (Será preciso explicar aqui no Rio, onde poucos o conhecem, que ele era um médico homeopata. Parentes irônicos caçoavam das “aguinhas” do Dr. Pacheco.). Lá do outro lado do fio, ouvia o médico a descrição da doença. Às vezes receitava pelo telefone, e então, freqüentemente, a doença continuava, mas se ele viesse em casa era fatal... Minha mãe o atendia, contando pormenorizadamente todos os sintomas. Ele a ouvia, interessado e bondoso. Ao cabo da conversa, dizia natural: “Vamos ver a doentinha”. Subiam a escada, ele se aproximava do leito, punha a mao na minha testa, e dizia para minha mãe:
- Mas ela não tem nenhuma febre.
Dedicado, tomava-me o pulso. Estava perfeitamente normal. Mamãe ficava subitamente envergonhada:
- Dr. Pacheco, eu lhe posso assegurar que não exagerei nada...
O médico debruçava-se e me examinava com todo o cuidado:
- Se esteve doente, já está boa!
Esse estranhíssimo fato não se passava apenas comigo, mas com muita gente. A presença do Dr. Pacheco – dentro de casa – curava instantaneamente a doença.
Quando me chega a notícia de que aos oitenta e oito anos morreu nosso grande amigo, reflito sobre a riqueza que esse homem pobre legou a seus amigos. Quem o conheceu de perto, acreditou certamente em que a vida é um pouco mais do que o jogo do sucesso e do dinheiro. Os médicos que acompanharam sua carreira, devem ter ficado ou edificados ou envergonhados. Durante toda a sua vida o Dr. Militão Pacheco manteve um consultório aberto só para os pobres. Já velhinho, acabou com os clientes ricos, e ficou, como um irmão do Cristo, servindo unicamente aos pobres.
Como eu disse no começo da crônica, não sinto tristeza alguma ao pensar que o nosso santo amigo já não pertence mais ao mundinho pequeno e feio. Sua aurora começou.

O Testamento do Santo
Quando escrevi a crônica sobre a morte do Dr. Augusto Militão Pacheco, dizendo que “não sentia pena por sua morte, pois que os santos vivem para morrer”, mal sabia que esse extraordinário velhinho havia tido em tudo um extraordinário final. Limitava-se a crônica a falar do passado, posto que o que ela sabia de sua morte era uma lacônica notícia. Agora, sei de detalhes extraordinários. O Dr. Militão Pacheco previu a sua morte e esperou calmamente por ela. Calmamente, disse mal. Contam-me agora que ele ficou radiante e emocionado, e que, na véspera de partir, conversou até duas horas da madrugada com seus amigos e sua família. O Dr. Pacheco preocupou-se muito mais com seu testamento espiritual, do que com aquele em que dividia os seus poucos bens pela família. Fez uma bela peça de crença na imortalidade da alma. A segurança com que o Dr. Pacheco deixou este nosso mundo de aflições e de disputas, faz bem à gente. Por isso, aqui transcrevemos um trecho de seu testamento espiritual:
“No limiar da vida espiritual, hoje com a morte penetro na verdadeira porta da imortalidade. Como pecador que sou, confesso-me arrependido perante o Senhor. Jesus ensinou-me como proceder para ingressar na vida espiritual. Seguro dessa promessa, peço à minha gente e a meus amigos que participem também dessa minha alegria; que não a perturbem de forma qualquer. O meu funeral será feito com toda a decência; o meu lar não alterará o seu ritmo normal, salvo para melhor; apresentará tom alegre e festivo, de modo a afugentar qualquer ar de tristeza, e assim todos os presentes se sentirão no gozo de qualquer estado inédito até então, e poderão dizer: - A despedida do Pacheco deixou-nos bem impressionados, pena foi que não estivéssemos convenientemente preparados para dizer-lhe também o nosso adeus”.
“Peço à minha gente que continue a viver na Paz e Harmonia do Lar; e que cada qual faça germinar em seu coração a Semente Bendita que Jesus nela plantou”.
“Graças a Deus, asseguro que os que observarem esta minha súplica, como uma saudação de despedida fraterna, ao ressurgirem na Vida Espiritual conhecerão o Reino de Deus: o Amor”.
“Que a minha gente cultive sempre a Simplicidade e a Humildade, quer em sua vida íntima, quer social. A todos os meus irmãos em Deus, os mesmos votos por minha gente”.
“Que assim seja”.
Intervém aqui a cronista para fazer o último reparo: sob a assinatura, velhinha de oitenta e oito anos, a mão trêmula do homem feliz que se despedia para viajar para junto de Deus traçou ainda uns dizeres. Apelidava-se de O Pequeno Servo Inútil, único absurdo, dessa carta de despedida que é toda uma canção de fé.
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Para finalizarmos, vejamos mais algumas particularidades do caráter do Dr. Augusto Militão Pacheco, reveladas pelo Dr. Luiz Monteiro de Barros, que foi por ele iniciado na Homeopatia e no aspecto evangélico do Espiritismo:
“O que caracterizava essencialmente a figura ímpar do Dr. Pacheco, era a sua fé consciente em Jesus, a sua convicção indiscutível na terapêutica homeopática, o seu amor à Verdade e a sua personalidade extraordinariamente positiva. Afirmava ele que o Evangelho continha a solução de todos os problemas humanos, com o que, naquela época, eu não concordava. Todas as vezes em que eu lhe apresentava meus problemas íntimos, pois ele era o meu conselheiro, dizia-me: - Vamos ver o que, a tal respeito nos ensina Nosso Senhor Jesus-Cristo. E realmente, para espanto meu e satisfação de nós dois, aparecia a solução evangélica”.
“Quando, em seu ambulatório, suas clientes diziam estar com medo disso ou daquilo, sua resposta era sempre a mesma: - Minha filha, só tenha medo de uma coisa: é de pecar. Se você pecou, trate de desfazer o erro; se não pecou, caminhe tranqüila, pois a Lei Divina a defenderá”.
“De sua maneira de pensar e de sentir decorria, evidentemente, o seu profundo amor à Verdade, que se manifestava por horror à mentira e por um viver dentro de uma franqueza rara, uma honestidade a toda prova, sempre de acordo com a admoestação de Jesus: Seja o seu dizer sim, sim, não, não! No entanto, se suas atitudes eram de profunda e invulgar energia, nem por isso deixava de ser compreensivo e tolerante para com os errados, a quem ministrava salutares conselhos, terminando sempre com o vai e não peques mais”..