sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MONTEIRO LOBATO

A exaltação do sentimento nacionalista já foi uma característica mais marcante em todos os países antes da globalização. Nos dias atuais a idéia do que é ou não é nacional quase se perdeu em meio à quebra de barreiras comerciais e culturais, e no aprimoramento dos sistemas de comunicação, particularmente do internet.
No Brasil, após o advento da República, o nacionalismo começou a tomar uma forma mais definida e atingiu o seu auge entre o início dos anos de 1930 até o final de 1970.
Em parte deste período, um personagem exerceu seu nacionalismo de forma contundente e corajosa. Estamos nos referindo ao advogado, crítico de artes, cronista e escritor paulista José Bento Monteiro Lobato (1882-1948).
Em 1907, Monteiro Lobato tornou-se promotor público em Areais - SP e lá se casou com Maria Pureza Lobato, entre os amigos conhecida como Dona Purezinha. Aproveitando a vida do interior eles se mudaram para a fazenda Buquira, que Lobato herdou de seu avô.
Neste período, ele publicou no jornal O Estado de São Paulo, o artigo Velha Praga, onde criticava o uso de queimadas - recurso utilizado para a limpeza do campo no preparo do solo para o plantio - classificando aquele procedimento como arcaico, e prejudicial ao solo, por empobrecê-lo.
Essa sua aventura interiorana, rendeu o surgimento do personagem Jeca Tatu e estudos acerca do Saci, figura do folclore brasileiro; mas, também sedimentou uma base para sua principal obra literária que realizaria mais à frente.
Em 1918, vendeu a propriedade e mudou-se para a capital paulista; foi nesta época que publicou seu primeiro trabalho, o livro de contos Urupês.
Adquiriu a “Revista do Brasil” e fundou a “Editora Monteiro Lobato & Cia.”. Por meio desta empresa ele conseguiu melhorar a qualidade gráfica de então, e a editora tornou-se posteriormente a “Companhia Editora Nacional”.
Acreditamos que seu momento de maior genialidade literária foi a obra publicada em 1921, “A Menina do Narizinho Arrebitado”, onde ele criou o fantástico mundo do “Sitio do Pica-Pau Amarelo”, onde Lucia - a menina do narizinho arrebitado - dividia suas aventuras com D. Benta, Tia Anastácia, o Visconde de Sabugosa - um sabugo de milho que adquirira vida - e a imprevisível Emilia - uma boneca de pano que falava, agia e pensava como uma pessoa adulta.
Seguiram-se vários outros livros, narrando as aventuras desta turma, e, em quase todos, Lobato dividia as histórias com personagens reais, mitológicos, folclóricos e alguns criados por outros escritores.
O sendo crítico artístico do escritor aflorou em 1922. Lobato teceu ferrenhas críticas sobre as pinturas que a artista plástica paulistana Anita Catarina Malfatti (1889-1964) expôs durante a Semana de Arte Moderna, entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, ocorrida no Teatro Municipal de São Paulo.
Entre 1927 e 1931, ele representou o Brasil como adido comercial em Nova York. De lá ele voltou admirado com os métodos de exploração dos recursos minerais e com o progresso realizado pelos norte-americanos, embora tenha perdido grande soma na quebra da Bolsa de Valores de Nova York, ocorrida em 29 de outubro de 1929.
Ao retornar para o Brasil, Lobato estava entusiasmado com o progresso que presenciara na nação norte-americana. Sentindo-se compelido a provocar idêntico desenvolvimento em nossa pátria, ele fundou o Sindicato do Ferro e a Companhia de Petróleo do Brasil. Apesar de todos os entraves que encontrou ele conseguiu um significativo êxito como a primeira companhia nacional a fazer jorrar jato de gás petróleo em terras brasileiras.
Porém, seu envolvimento na questão da nacionalização do petróleo trouxe-lhe dissabores e granjeou-lhe adversários.
Em 24 de maio de 1940, durante o Estado Novo, num ato de inaudita coragem, ele escreveu uma carta para o presidente Getúlio Vargas, alertando-o de que havia displicência por parte do Conselho Nacional do Petróleo, ao retardar a criação de uma indústria petrolífera nacional apenas para satisfazer interesses estrangeiros.
Depois de muitas idas e vindas acerca desta sua correspondência e de outras declarações sobre o assunto, Lobato foi detido em prisão celular no dia 20 de maio de 1941, sendo indultado por Getúlio e liberado da prisão em 20 de junho daquele mesmo ano.
Os movimentos iniciais do escritor paulista, em defesa da exploração do petróleo não ficaram em vão. Em 1948, ano em que ele desencarnou, a União Nacional dos Estudantes - UNE - criou a Comissão Estudantil de Defesa do Petróleo e o lema: O Petróleo É Nosso. Por fim, em 03 de outubro de 1953, o próprio Getulio criou a Petrobrás.
Passados mais de dois anos após a saída da prisão, Lobato descobriu o mundo espiritual, os Espíritos e sua capacidade de nos contatar.
No livro “Monteiro Lobato e o Espiritismo”, de Maria José Sette Ribas, foram publicadas as Atas das reuniões onde ocorreram suas experimentações com a mediunidade.
É interessante anotar que sua primeira sessão mediúnica não ocorreu em 21 de dezembro de 1943, como registram os historiadores espíritas, mas antes desta data, quando seus amigos desencarnados se dirigiram a Lobato repassando-lhe informações acerca da imortalidade das almas; contudo, a ata desta reunião foi extraviada.
Por meio daquele livro pudemos observar o método utilizado pelo escritor e seu grupo para entrar em contato com os Espíritos. Eles utilizavam um copo, que sob a ação dos Espíritos e sendo tocado pelo médium e assistentes, desliza por sobre um alfabeto disposto de maneira circular, lembrando alguns aspectos das tábuas de ouija. Vale observar que este método já era considerado primitivo e ultrapassado naquela época, além do que já existiam diversos médiuns psicógrafos e psicófonos no Brasil; mas não deixava de ser um sistema de contato e, neste caso, se mostrou bastante eficiente.
No grupamento, cabia a Lobato anotar as letras do alfabeto que tinham sido escolhidas pelos Espíritos, em resposta às perguntas formuladas; bem como a tarefa de escrever as atas.
A médium do grupo familiar era sua esposa Dona Purezinha. Os encontros se deram entre 1943 - o dia e o mês são imprecisos pelos fatos já mencionados - e 23 de março de 1947 - como consta da obra citada.
Durante estes encontros, esclareceu José Herculano Pires no prefacio do livro, Monteiro Lobato aprendeu a “dialogar” com os Espíritos comunicantes e chegou até mesmo a obter a transformação moral de um que se identificou pelo nome K, que inicialmente atormentava os encontros.
Entre as atas elaboradas encontramos uma que vem endossar a informação de que os Espíritos não estão à nossa inteira disposição. De fato, em 03 de junho de 1944, o grupo de Lobato aguardou durante meia hora, mas não ocorreu qualquer movimento do copo.
Outra ata demonstra o seu grande interesse pelos fenômenos mediúnicos; referimo-nos a uma sessão ocorrida em Buenos Aires, durante o ano de 1946, quando ele se auto-exilou na Argentina, apesar de continuar a escrever artigos para alguns jornais brasileiros. Mesmo distante de sua pátria ele continuou realizando suas experiências.
Vamos tomar a liberdade de extrair uma das atas para melhor ilustrarmos o relato. Não nos esqueçamos, as perguntas são feitas, as respostas vêem por meio do copo que seleciona as letras do alfabeto, a médium é a Dona Purezinha e Lobato faz as anotações:
“Sessão de 12 de agosto de 1944”.
“Tivemos uma sessãozinha de excepcional valor emotivo. Sem muita demora o copo escreveu”:
- Adamastor Ferraz.
- Português, evidentemente, mas de onde irmão?
- Inhambane, Moçambique.
- Lembra-se de quando passou, ou faleceu, ou morreu?
- Desencarnei em 1868.
- Uma coisa: estará, por acaso, vendo outros espíritos nesta sala, aqui junto de nós?
- Muitos.
- Pode distinguir algum?
- Principalmente uma irmã já idosa.
“Ficamos todos assanhados, porque podia ser a mãe de algum dos presentes. Eu perguntei:”?
- E onde está essa irmã?
- Pegada a irmã vestida de preto e branco (Purezinha estava com um vestido de ramagens brancas em fundo preto). “O copo continuou”:
- Ela parece ter sido muito íntima. Tem olhos azuis.
“Dona Brasília, mãe de Purezinha, tinha olhos azuis. Havia, pois, de ser ela. Pedi ao irmão Ferraz que lhe perguntasse o nome e o copo imobilizou-se, sinal de que o espírito atuante está falando com outro. Depois escreveu”:
- Brasília Natividade.
“A mãe de Purezinha! Fizemos um barulhão, e eu”:
- Pergunte-lhe se pode tomar o copo e conversar conosco.
“O copo imobilizou-se de novo, e depois escreveu”:
- Ainda não tem permissão.
- Que história de permissão é essa, Adamastor? Então há um governo aí, uma tutelagem ou que seja, de modo que até para uma simples conversa conosco é preciso “permissão”? Permissão de quem?
- Nem nós o sabemos.
- Pergunte a irmã Brasília se não tem desejo de conversar com os seus parentes vivos.
“O copo, depois de imobilizar-se, escreveu”:
- A vontade sentida por ela de poder comunicar-se é imensa. Mas não o pode ainda.
- Pergunte-lhe se tem alguma coisa a dizer-nos.
- Ela envia grandes saudades para as filhas e filho.
- Pergunte-lhe se sabe que Bentinho (irmão dela), já se comunicou conosco quatro vezes.
- Não.
- E, além de Dona Brasília, não há algum outro espírito marcante.
- Uma irmã de cor negra.
“Quem seria? Pensamos em Eugênia, a última criada preta de estimação que tivemos e levamos para os Estados Unidos”.
- Pergunte-lhe o nome, irmão, “pedi - e o copo depois da inevitável paradinha, escreveu”:
- Anastácia.
“Fizemos uma festa. Tia Anastácia fora ama-seca de Edgard, e queridíssima da casa”.
- Não poderá Anastácia tomar o copo e conversar conosco?
- Ainda não tem força.
- Diga-lhe, Adamastor, ou pergunte-lhe se sabe que o Edgard morreu o ano passado.
“O copo, depois da pausa, respondeu dum modo curioso, repetindo as palavras com que Anastácia respondeu à minha pergunta”.
- E o menorzinho também...
“Referia-se ao Guilherme, que naquele tempo era o “menorzinho”. Confessou, pois, saber da morte dos nossos dois filhos. Contei-lhe, por intermédio de Adamastor, que o Edgard - ou Dagá, como ela dizia, deixara um filhinho, hoje com seus anos. Depois perguntei-lhe se ainda se lembrava do nome do seu marido aqui na Terra. E o copo nos transmitiu a resposta”.
- Esaú.
“Muito certo. O preto Esaú era o marido de Anastácia. Ainda tenho o retrato dele guiando a carroça da chácara do meu avô, em Taubaté. Agradeci a Adamastor a sua bondosa atuação e pedi-lhe que aparecesse mais vezes - e que nos dissesse uma frase final, ou conselho para fecho da nossa extraordinária sessão. O copo escreveu”:
- Cuidem de suas vidas que já não fazem pouco.
“E mais não houve. Por mais que tentássemos, não saiu mais nada”.
“Fizemos tudo para que aparecesse o K..., mas inutilmente”.
-o-
Esta reunião nos fornece algumas conclusões interessantes; Lobato desconhecia que existem algumas condições para que um Espírito se comunique; não é qualquer um, em qualquer momento, que pode fazer uso da mediunidade para manter contato com os encarnados. Existem pré-condições estabelecidas por Espíritos que conhecem todos os aspectos e interessados envolvidos, e que, por sua ascendência moral, pode permitir ou não uma manifestação, sempre levando em consideração a utilidade e a conveniência desta.
Por este aspecto do diálogo é possível concluir que Monteiro Lobato ou não conhecia o Espiritismo ou, se conhecia, era parcialmente.
Seu interesse pelos contatos com os habitantes do mundo espiritual levou-o a traduzir para a língua portuguesa o livro “Raymond”, escrito por Oliver Lodge.
Monteiro Lobato desencarnou repentinamente em 1948, deixando vasta herança ao povo brasileiro, primeiro por sua defesa, não somente da indústria do petróleo, mas de todo patrimônio nacional; depois, pelos relatos das aventuras ocorridas no “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, que até hoje encantam o imaginário popular; e, por fim, pelas atas de suas reuniões mediúnicas, que hoje podem ser utilizadas como mais uma comprovação da realidade dos Espíritos desencarnados e de suas capacidades.